Resenha (ainda em fase de construção) – BraudelXBurke Sexta-feira, Jul 3 2009
Sem Categoria 00:38
Braudel X Burke: do paradigma tradicional à “história nova”.
Carlos Vinicios V. Silva*
O presente texto se consistirá em discutir as concepções de história de dois autores que são um marco para a historiografia mundial, Fernand Braudel e Peter Burke. Falaremos, então, sobre Braudel, a partir de análises de um de seus artigos intitulado: “História e ciências sociais. A longa duração”, assim como discutiremos também sobre o historiador Peter Burke, através de seu artigo: “Abertura a nova história, seu passado e seu futuro”.
Antes de tudo acredito pertinente fazermos uma breve apresentação sobre a trajetória e vida desses autores. Portanto, Fernand Braudel foi um historiador francês, formado na Faculté des Lettres de Paris da Universidade de Sorbonne, ficou conhecido pela introdução de renovações nos métodos historiográficos tradicionais, dirigiu ainda a revista Annales, Economies, Sociétés, Civilisations que foi herdada de seus fundadores Lucien Febvre e Marc Bloch (sendo um dos mais importantes representantes dessa escola historiográfica) e teve como produção histórica mais conhecida a sua tese de doutorado que era sobre Filipe II de Espanha e o Mediterrâneo. Já o autor Peter Burke é um historiador inglês, formou-se na Universidade de Oxford, ficou conhecido como um especialista na Idade Moderna européia e também em assuntos da atualidade, enfatizando a relevância de aspectos socioculturais nas suas análises propondo importantes publicações, tanto no campo da historiografia quanto no campo da história. Atualmente Burke é professor emérito da Universidade de Cambridge.
Esse breve histórico já dispensa qualquer tipo de comentários destrutivos acerca desses autores. No entanto, as evoluções dos estudos históricos estão sempre em constantes movimentos e é a partir desses, que surgem novos métodos, rumos e objetos. Uma discussão renovadora sobre esses três pontos ressaltados anteriormente é o que Fernand Braudel vai apresentar para a historiografia mundial da segunda metade do século XX. Sua preocupação com o reducionismo nas abordagens históricas se tornará perceptível quando ele diz em seu artigo que:
“é um fato que, salvo os quadros factícios, quase sem espessura temporal, de onde recordava suas narrações, salvo as expedições de longa duração de que era preciso sorti-la, é um fato que, no seu conjuno, a história dos últimos cem anos, quase sempre política, centrada no drama dos “grandes eventos”, trabalhou no e sobre o tempo curto”. (BRAUDEL; P. 46)
A primeira preocupação que Braudel apresenta em seu texto, é a respeito da grande parte das narrativas históricas ainda permanecerem voltadas para um padrão de abordagem cegamente vinculado a perspectiva da história política. Segundo o autor, a partir da difusão da descoberta maciça dos documentos os historiadores passaram a crer que em tais registros residia toda verdade histórica. Certamente a concentração dos estudos históricos em apenas um foco, paltada no modelo de Ranke(da história política), era o que o incomodava Fernand Braudel. Pois na tentativa de resolver esse problema, Braudel diz que o erro está no foco do objeto, assim como está também na relação que o historiador estabelece com o tempo, voltando seus estudos apenas para análises do tempo curto. Para ele repensar a relação pesquisador/tempo, era o ponto de partida para abrirmos as visões à novas abordagens históricas. Isso se torna evidente quando ele fala que: “se aceitarmos que essa superação do tempo curto foi o bem mais precioso, porque o mais raro, da historiografia do últimos anos, compreenderemos o papel eminente da história das instituições, das religiões e das civilizações”.(BRAUDEL;P.47). É a partir daí que percebemos uma das maiores contribuições do pensamento dessa autoridade para a historiografia mundial. A superação do tempo curto para um tempo que ele chama de longa ou longuíssima duração é o que vai proporcionar a ampliação da visão de um pesquisador sobre o seu objeto de estudo. Em algum momento do texto Braudel exemplifica essa teoria dizendo que se uma pessoa passar um mês em Londres, ela não conhecerá a Inglaterra. Isso nos remete a idéia de que tal pessoa não terá uma visão do todo, porque não está olhando seu objeto com plena totalidade.
As análises propostas por Peter Burke também se consiste em mostrar a passagem da “antiga história” para aquilo que vai ser chamado no século XX, a partir do surgimento dos Annales, de “Nova História”. Mas Burke não se atém apenas em dizer que esse rompimento iniciou na Europa com os Annales, ele mostra que o termo: “história nova”, já tinha sido proclamado por um historiador norte americano chamado James Harvey Robinson. Mas essa não será a preocupação central de Burke.
O que Burke vai enfatizar em seu artigo é aquilo que representou o rompimento com a “antiga história”. Segundo ele: “tem sido recentemente argumentado que a substituição de uma história antiga por uma nova (mais objetiva e menos literária) é um tema recorrente na história da escrita da história”. (BURKE;P.18). Nesse aspecto ele aponta seis pontos que se enquadram em tal rompimento: o primeiro diz respeito a história essencialmente política, isso significou que os objetos de pesquisa históricas foram se alargando para outros campos da vida humana( social, econômico e cultural); o segundo, a superação da maneira de pensar história apenas como uma simples narrativa dos acontecimentos, trazendo uma nova ferramenta para a história, a problematização do objeto; o terceiro demonstra um avanço historiográfico ao deixar de ter uma visão de “cima”, se concentrando nos vultos da história(nos grandes homens, nos grandes feitos e nos grandes acontecimentos.); o quarto rompimento apresenta uma ampliação no que se refere a o tipo de fontes que são consideradas documento, ou seja, a ampliação do conceito de documento, deixando de ser apenas os escritos “oficiais”; o quinto, passa pela superação na concentração de uma história voltada para uma sentido individual para uma abordagem mais coletiva, nesse sentido tenta-se compreender as sociedade, as civilizações e não apenas um indivíduo; no sexto e último rompimento proposto por Burke encontramos a superação daquilo que podemos chamar de história objetiva, que procurava chegar a apenas um consenso sobre um determinado tema. Essa visão desconsiderava aquilo que chamamos hoje de subjetividade da história ou perspectiva do historiador.
Que ocorre uma transformação durante a passagem do século XIX para o século XX no campo da historiografia mundial é indiscutível, pois as abordagens que prepuseram rompimento com o paradigma tradicional trouxeram melhorias na maneira de pensar e fazer história assim como também trouxeram alguns problemas que estarão presentes nas discussões dos historiadores da segunda metade do século vinte e início do XXI. O próprio Burke aponta algumas dessas preocupações com os rumos dos estudos históricos. Pois para ele:
“ os historiadores estão diante de um dilema. Se explicarem as diferenças no comportamento social nos diferentes períodos pelas diferenças nas atitudes conscientes ou nas convenções sociais, correm o risco da superficialidade. Por outro lado, se explicarem as diferenças no comportamento pelas diferenças na profunda estrutura do caráter social, correm o risco de negar a liberdade e a flexibilidade dos atores individuais no passado”.(BURKE;P.34).
Da mesma maneira o que Burke coloca é que a história parece estar se esfacelando. Ele diz que:
“a disciplina da história está atualmente mais fragmentada do que nunca. Os historiadores econômicos são capazes de falar a língua dos economistas, os historiadores intelectuais, a língua dos filósofos, e os historiadores sociais, os dialetos dos sociólogos e dos antropólogos sociais, mas estes grupos de historiadores estão descobrindo ser cada vez mais difícil falar um com o outro”.(BURKE;P.35).
A forma com que os historiadores estão se tornando especialistas em uma determinada área do conhecimento, é o que tem sido a preocupação de Peter Burke. Se vimos com Braudel uma tentativa de “libertação do paradigma tradicional voltado unicamente para a história política, o que Burke critica é a maneira com que essa abertura do conhecimento tem influenciado os objetos de pesquisa na segunda metade do século vinte. Se hora a perspectiva de Braudel passa pela de Burke, sabemos que este último já afirmara que: “ainda estamos a uma longa distância da “história total” defendida por Braudel”.(BURKE;P.37).
Dessa maneira os paradigmas da história se mostram sempre renováveis e prontos para novas critica e abordagens.
________________________________________________________________
*Carlos Vinicios V Silva é aluno da Faculdade de Formação de Professores da UERJ.
Referência Bibliográfica
- BURKE, P.(Org).Abertura a nova história, seu passado e seu futuro. In: A Escrita da História. São Paulo: Editora UNESP, 1992, 360 pp.
- BRAUDEL, F. História e ciências sociais. A longa duração. In: Escritos Sobre História São Paulo: Editora Perspectiva, 978, 294 p.


